ARTIGOS

Publicado em 16 de Outubro de 2013 11:44

O taxista

Publicado por Valdeblan Siqueira Expirado

Vez por outra utilizo os serviços de algum taxista. Uns são reservados enquanto outros se põem a falar tão logo se entra em seu veículo. Os primeiros terão diferentes motivos para sua discrição, desde algum problema pessoal até a cautela de quem estuda o perfil do passageiro e sua predisposição ou não, ao diálogo. Nesse caso aguarda, estrategicamente, algum comentário que dê margem a um “pé de conversa“. Pode ser, entre outros, a instabilidade climática, o estado de conservação das vias públicas e a conseqüente (ir) responsabilidade do gestor público. Acredito que o tema de maior incidência seja o futebol e o de menor incidência, a religião. Em ambos os casos o taxista costuma conduzir a conversa com a habilidade de um comunicador profissional, procurando ser tolerante com o time ou a religião de seu cliente. A tolerância aqui referida não quer dizer excesso de maleabilidade, a ponto de se esquivar quanto à sua preferência. Ela estará estampada no painel com o emblema de seu clube ou um símbolo religioso: geralmente um crucifixo ou uma bíblia. Uma forma de prevenir-se contra algum comentário infeliz e ofensivo desse ou daquele dogmático usuário. Uma hipótese que será remediada por algum incidente nas ruas que permita derivar para outro tema ou, quem sabe, abreviar a chegada a seu destino. E pensar com seus botões: “com esse passageiro eu não ando ou não converso mais“. Contra os taxistas há uma série de preconceitos alimentados por alguns profissionais que não zelam o suficiente pela imagem de sua categoria. A responsabilidade por um desses preconceitos pode ser dividida com egocêntricos passageiros. Sem planejar previamente seu itinerário, dizem, na última hora e em qualquer lugar, “pare aqui“, desde que lhes resulte mais cômodo. Não é regra geral. Mas, na ânsia de prestar o melhor serviço, muitas vezes o taxista freia ou muda inesperadamente de faixa sem sinalizar adequadamente, desconsiderando a situação dos demais condutores e, eventualmente, provocando acidentes. A favor dos taxistas há a percepção de que constituem uma categoria coesa e extremamente solidária. De uma cultura oral bastante desenvolvida. Um deles me confidenciou que não sabia ler. Custou-me acreditar que fosse verdade o que me dizia, por conta da sua facilidade de expressão verbal. Alguns taxistas executivos disponibilizam um exemplar do “Jornal do Comércio“ para seus clientes. Em suas rodas de conversa estão sempre aprendendo uns com os outros e, obviamente, com os passageiros. Profissionais do ramo entendem como ninguém sobre mecânica de automóvel, prestando consultoria àqueles que se declaram ignorantes no tema e lhes perguntam sobre “onde e com quem“ realizar serviços mais baratos e de melhor qualidade. Eventualmente queixam-se de sua saúde, geralmente problemas de coluna adquiridos graças aos tantos anos que, orgulhosamente, dizem exercer aquela atividade. Nômades sobre quatro rodas, trazem consigo inigualável experiência, revelada em suas falas. Pode-se contar entre eles com ex-bancários, pequenos empresários e outros, procedentes de distintas atividades profissionais, das quais migraram por força da crise econômica. Um deles chamou minha atenção. Nada de futebol nem religião. Falava de valores morais. Emocionado recordava sua mãe, Maria da Paz, e um de seus ensinamentos: “o melhor tempero da comida é a fome“. Uma lembrança que o fortalece em suas dificuldades. Contei-lhe do prato de farinha encimado por um ovo frito, com um copo de café cuja metade era pó, que me foi dado por um anjo que residia num casebre. Na estrada deserta em que me encontrava foi o melhor prato que comi em toda minha vida. E ouvi do sábio taxista Jamesson: a arte de viver precede a arte de conviver.

Publicado no JC dia 28.07.09 

Valdeblan Siqueira é auditor fiscal de tributos da Secretaria da Fazenda do Estado de Pernambuco

Data de inclusão: 28/07/2009

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