ARTIGOS

Publicado em 16 de Outubro de 2013 10:26

Miopia das perdas e ganhos

Publicado por Valdeblan Siqueira Expirado

Quantas coisas têm as pessoas simples a nos ensinar. E quanto nós deixamos de aprender com elas, devido à nossa arrogância ou miopia. Ao longo da vida somos ensinados a buscar inspiração apenas no êxito e na vitória. Esquecemos que é possível e necessário tirar lições do fracasso. Perdemos a oportunidade de verificar que toda conquista verdadeira começa com a superação das dificuldades, para só então se encaminhar para os bons resultados. Quantos são aqueles meninos e meninas pobres que conseguiram um espaço profissional de maior reconhecimento público e social, à custa de muito esforço e disciplina pessoal e do empenho da família? Ao tomarem conhecimento de que passaram em algum concurso público ou equivalente, alguns parentes e amigos podem até comentar: que sorte ou que inteligência brilhante!

A sorte pode até ocorrer, como manifestação eventual, nunca sistemática. E a inteligência não é obra do acaso. Ela deriva de um longo investimento no aprimoramento do conhecimento, mesclado com o desenvolvimento das necessárias habilidades e atitudes. Mas é possível aprender também com as histórias daqueles que, apesar dos esforços, não alcançaram resultados tão expressivos. Aprenderam a “matar um leão“ a cada dia, a fim de garantirem o sustento mínimo para suas famílias. Levam uma vida bastante sacrificada. Perdem um emprego e nem por isso cometem suicídio. Resilientes, levantam a cabeça e buscam outra atividade, imediatamente. E para isso se capacitam. Desfrutam a felicidade em cada nova conquista profissional. Em suas atividades e relacionamentos contagiam pela satisfação pessoal de ganhar o pão com o suor do próprio rosto. E um imenso sorriso toma conta de todo o seu ser.

Tomemos o jogo como metáfora da própria vida. É ela, a vida, mais complexa que todas as copas. Na vida há perdas e ganhos. Administrar um placar desfavorável é tarefa para jogadores, equipe técnica e torcedores emocionalmente equilibrados. Ganhar exige toda uma dedicação. Perder é fácil. Saber perder é mais difícil. E, fazê-lo com dignidade, exige todo um aprendizado. Começando por admitir essa possibilidade como parte do jogo. Na hipótese de que venha a ocorrer, será preciso ter o equilíbrio necessário para reunir as energias e seguir adiante. Dar a volta por cima: uma virtude essencial a ser ciclicamente realimentada.

Talvez precisemos rever nossos paradigmas educativos no âmbito de nossas famílias. Será que não estamos promovendo expectativas nem sempre factíveis, geradoras de inúmeras frustrações? Acabamos de ser eliminados numa copa do mundo. De tanto acumularmos vitórias no futebol, esquecemos que o importante, efetivamente, é poder participar das competições respeitando as regras do jogo. Claro, dando o melhor de nós para obter a vitória. Mas, não a ponto de estender o lamento da eventual derrota às nossas vidas. A próxima Copa será no Brasil, dentro de quatro anos. Viveremos em função desse evento, por mais importante que ele venha a ser para a engrenagem econômica do País? Obviamente que não!

Quem quer perder? Absolutamente ninguém. Quem vibra com a derrota? Excetuados os masoquistas de plantão, não é disso que aqui se trata. É natural sentir o impacto na ocasional derrota de nossa equipe. O que se quer aqui destacar é a importância de nos prepararmos e de prepararmos a nossos filhos para o realismo contido na experiência do jogo (da vida). Ganhar ou perder? Importa mais que tenhamos “combatido o bom combate“. Não há garantia de resultados. Vencerão os que estiverem, técnica e emocionalmente, melhores preparados. Saber perder: um aprendizado que coloca em primeiro plano a preservação da dignidade. Própria e dos demais.

Publicado em 20.07.2010 no JC

» Valdeblan Siqueira é auditor fiscal de tributos da Secretaria da Fazenda de Pernambuco e professor da Escola de Direito da Faculdade dos Guararapes 

Fonte: Jornal do Comércio 

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